Epidemia de febre amarela em Minas Gerais: a cobertura vacinal sai de 47% para 82%

Como Minas enfrentou a epidemia de febre amarela: decreto de emergência, mutirão de vacinação e cobertura vacinal de 47% para 82%.

A epidemia de febre amarela em Minas Gerais não começou nos hospitais. Começou no mato, com macacos mortos no leste do estado no fim de 2016, muito antes de o primeiro paciente chegar a um pronto-socorro. Quando os casos humanos apareceram, a doença já circulava em uma faixa do território que havia mais de meio século não registrava transmissão.

O que veio depois foi a maior operação de vacinação já montada pelo estado em resposta a um surto. Este é o registro do que foi feito, com os números oficiais de cada etapa, e também do que custou: as duas ondas somadas deixaram centenas de mortes e cobraram do SUS mineiro uma resposta em escala inédita.

O alerta veio antes do primeiro caso humano

A febre amarela silvestre avisa antes de chegar. O vírus circula entre primatas, e a morte de macacos em uma região é o sinal de que o ciclo está ativo ali. Por isso a vigilância de epizootias, que é o nome técnico dessas mortes em bloco, fica exatamente na fronteira entre a saúde e o meio ambiente: depende de quem anda no campo, de quem fiscaliza unidades de conservação e de quem recebe a notificação do produtor rural.

Em janeiro de 2017, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais foi notificada de 48 casos suspeitos e 14 óbitos, 8 deles já confirmados como febre amarela, concentrados nas regiões de Teófilo Otoni, Governador Valadares, Manhumirim e Coronel Fabriciano. Os números constam do decreto estadual de emergência publicado no dia 12 daquele mês.

11 de janeiro de 2017: a posse e, no dia seguinte, o decreto

A nomeação de Sávio Souza Cruz para a Secretaria de Estado de Saúde foi publicada no Diário Oficial de 11 de janeiro de 2017, com 23 casos suspeitos notificados no estado. No dia seguinte, o governo declarou situação de emergência em saúde pública nas quatro regionais de saúde atingidas.

O decreto não é peça de retórica. Ele é o que permite comprar sem licitação, requisitar bens e serviços de particulares mediante indenização e contratar pessoal em caráter temporário, três travas que, em tempo normal, levam semanas para serem vencidas. E criou uma sala de situação reunindo a Secretaria de Saúde, a Defesa Civil, a Secretaria de Agricultura e a Secretaria de Meio Ambiente, justamente porque o alerta da doença vem do campo, e não do consultório. Sávio havia comandado a pasta de Meio Ambiente até maio de 2016, o que encurtou o caminho entre uma ponta e a outra.

No dia 13, a emergência foi anunciada abrangendo 152 municípios, com validade de 180 dias, e o governo levou às regiões atingidas o seminário Minas Gerais contra a Febre Amarela, com edições em Caratinga e em Teófilo Otoni, segundo apresentação da própria Secretaria de Estado de Saúde. No dia 14, em Teófilo Otoni, o governo anunciou a liberação de R$ 26 milhões para as ações de enfrentamento. Três dias separaram a posse da liberação do dinheiro.

A operação de guerra

A expressão é do próprio secretário. Em 2 de fevereiro de 2017, ao anunciar a queda no ritmo de entrada de novos casos, Sávio Souza Cruz resumiu assim: “A gente observa um declínio na entrada de novos casos, sinalizando que toda essa operação de guerra que foi montada pelo governo de Minas vem tendo efeito”. Naquele momento, o estado já havia recebido 3,5 milhões de doses do Ministério da Saúde só em janeiro e distribuído cerca de 2,5 milhões delas nas áreas afetadas, com 152 municípios prioritários e até helicóptero da Polícia Civil empregado para encurtar o tempo de entrega nos vales.

Os números do informe epidemiológico da SES-MG de 24 de fevereiro dão a dimensão do conjunto da operação em pouco mais de um mês:

  • 5.817.400 doses de vacina distribuídas, sendo 2.156.200 para as regiões prioritárias e 3.661.200 para a rotina e as ações de bloqueio;
  • 3.435.075 doses aplicadas, das quais 1.496.398 nos municípios prioritários do surto;
  • 70 vacinadores e motoristas contratados apenas para reforçar a força de imunização em campo;
  • 154 leitos extras abertos para o atendimento da doença: 110 clínicos, 30 de UTI e 14 de cuidados semi-intensivos;
  • telessaúde desde 13 de janeiro, para que médico e enfermeiro de qualquer município pudessem tirar dúvida de manejo clínico em tempo real;
  • ambulâncias enviadas às regiões atingidas, cinco delas para a região de Teófilo Otoni, e distribuição de soro e medicamentos de suporte.

Em abril, o Brasil passou a adotar a dose única da vacina, seguindo recomendação da Organização Mundial da Saúde. Na prática de campo, isso significou uma ida a menos por pessoa e uma logística menos pesada em um estado com 853 municípios.

Caratinga, Piedade de Caratinga, Imbé de Minas e Ubaporanga

A região de Caratinga foi um dos epicentros da primeira onda. Em 28 de janeiro de 2017, o balanço divulgado pela SES-MG para o Vale do Aço e a região de Caratinga registrava 96 notificações em Caratinga, com 11 casos confirmados; 21 notificações em Piedade de Caratinga, com 5 confirmados; 17 investigações em Imbé de Minas, com 7 confirmados; e 3 casos confirmados em Ubaporanga. Foi para essas regiões que foram direcionados os leitos contratados, o apoio à vacinação e os medicamentos.

O enfrentamento em Piedade de Caratinga virou relato de experiência publicado pelo Conasems, o conselho nacional das secretarias municipais de saúde. É o retrato de como a linha de frente se organizou no município, e vale a leitura de quem trabalha na ponta.

O custo humano

Nenhum balanço de gestão apaga o que a doença fez. No período de monitoramento encerrado em junho de 2017, Minas Gerais confirmou 475 casos de febre amarela silvestre e 162 óbitos, com letalidade de 34,1% em 72 municípios. É a epidemia mais letal já registrada no estado, e o Ministério da Saúde a classificou como a pior do país desde 1980. Em setembro de 2017, o ministério declarou encerrado o surto.

Dois dados do informe estadual explicam por que a vacinação virou a única variável que o poder público conseguia mover com rapidez: entre os casos confirmados, 62% das pessoas não tinham sido vacinadas e outros 35% não tinham como comprovar vacinação. E a letalidade crescia com a idade, chegando a 43,3% na faixa dos 50 aos 59 anos.

De 47% para 82%: o que mudou na cobertura vacinal

No começo do surto, a cobertura vacinal contra a febre amarela em Minas estava longe do necessário. Dados do Ministério da Saúde mostram que, em 2016, quase metade dos municípios mineiros da área de recomendação da vacina tinha cobertura abaixo de 50%.

Um ano depois, em 5 de janeiro de 2018, ao anunciar novas medidas ao lado do governador, o secretário deu o número: “Do ano passado para cá, Minas Gerais avançou muito na cobertura vacinal contra a febre amarela, saindo de 47% para 81%”, com 84% na região metropolitana de Belo Horizonte. Ele apontou onde estava o vazio: homens de 15 a 45 anos, a faixa que menos procura posto de vacinação e a que mais adoeceu.

O secretário da SES-MG, Sávio Souza Cruz, e o subsecretário, Rodrigo Said, falaram à imprensa após a reunião com o governador (Crédito: Manoel Marques/Imprensa MG)
O secretário da SES-MG, Sávio Souza Cruz, e o subsecretário, Rodrigo Said, falaram à imprensa após a reunião com o governador (Crédito: Manoel Marques/Imprensa MG)

Três semanas depois, o decreto que ampliou a emergência de 94 para 162 municípios, alcançando também as regionais de Barbacena e Juiz de Fora, registrou cobertura estadual de cerca de 82%. O mesmo documento mostra o tamanho do que ainda faltava: 3.522.381 mineiros não vacinados, para uma meta de 95%.

A segunda onda já estava em curso quando esse número foi alcançado. Com a confirmação de casos em Brumadinho, na região metropolitana, o estado fechou temporariamente o Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, ampliou horários de vacinação, levou a imunização casa a casa e em horário noturno na zona rural do município e pediu ao Ministério da Saúde mais 1 milhão de doses, além das 400 mil que tinha em estoque.

O que a epidemia deixou claro sobre o SUS mineiro

A primeira lição é operacional: vacina em galpão não protege ninguém. Entre a dose distribuída e a dose aplicada há sala de vacina aberta, geladeira funcionando, vacinador contratado, carro com combustível e estrada de terra percorrida. Foi por isso que a resposta precisou contratar gente e abrir leito ao mesmo tempo em que comprava vacina.

A segunda é de financiamento. Uma epidemia não espera o fluxo normal de repasse, e o estado chegou a cobrar publicamente recursos federais atrasados em plena resposta ao surto. Foi também nesse período que a Secretaria levou serviços que a região não tinha, como a base do SAMU em Oliveira, viabilizada em junho de 2017 com cobertura de 54 municípios.

E a terceira é política. O médico sanitarista Sérgio Arouca deu à sua fala de abertura da 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, o título que se tornou o lema de uma geração: democracia é saúde. Vinte anos depois do nascimento do SUS, uma epidemia mostrou o outro lado dessa frase. Sem serviço público capilarizado, sem servidor de carreira na vigilância e sem informação circulando entre município, estado e União, nenhum decreto vacina ninguém.

A entrevista

No programa Café com Política, do jornal O Tempo, o secretário de Estado de Saúde falou sobre a gestão da pasta e o enfrentamento da epidemia.


Fontes: decreto de emergência publicado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais; informes epidemiológicos da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais; Fiocruz; Conasems; Estado de Minas, O Tempo e Diário do Aço.