Minas vive sua mais dramática tragédia com o rompimento de barragem

Por volta das 16 horas do dia 5 de novembro, uma quinta-feira, rompeu-se em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, o dique da barragem do Fundão, reservatório onde a Samarco Mineração S/A acumulava os rejeitos de sua atividade de exploração de minério de ferro. O rompimento liberou uma avalanche de cerca de 60 milhões de m3 de água e resíduos que soterrou as casas do distrito e avançou com violência, arrastando tudo o que havia pela frente. Alcançando a calha do Rio Doce, o caudal avançou para o oceano e deixou devastação e sofrimento em todo o longo trajeto.

Reunião Gov Pimentel Secretário Sávio e Prefeitos

À esquerda, o secretário Sávio Souza Cruz durante reunião de 18/11 com o governador Fernando Pimentel (MG) e prefeitos dos municípios do Rio Doce (Foto Semad)

Perdas humanas, culturais, ambientais e materiais – Até o dia 17 de novembro, 12 dias após o rompimento da barragem, 11 corpos haviam sido resgatados dos destroços pelos bombeiros e 12 pessoas continuavam desaparecidas. Em atendimento regular em ambulatório especial criado em Mariana encontravam-se 35 pessoas que tiveram contato com os rejeitos da mineração. Mais de 600 pessoas abrigavam-se em casa de parentes ou em hotéis e pousadas na cidade. Não bastasse, perdeu-se todo um espaço urbanizado, dono de história de longa data e de referências culturais próprias, cujo desaparecimento deixa vazio sem remédio no mapa do Estado e, especialmente, na biografia de cada morador. A agressão ao meio ambiente, de tão severa, não tem ainda como ser medida. Prédios públicos, moradias, mobiliário, objetos pessoais e de devoção, plantações, peixes e animais terrestres, matas ciliares, nascentes, cursos d´água se perderam.

Embargo do empreendimento – O secretário Sávio Souza Cruz, que estava de licença médica na data em recuperação de uma cirurgia, retornou à Semad de imediato e embargou as atividades da mineradora, tendo também convocado a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) e o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) para a prestação de seus serviços específicos. Com as providências, a Samarco passou à condição de autorizada apenas para desenvolver ações emergenciais, voltadas para minimizar o impacto do rompimento e impedir seu agravamento. Sem condição de deslocar-se a Mariana na data do acidente, o secretário Sávio assistiu à entrevista do governador em sua primeira visita ao local. Como tudo o mais estava destruído, o governador precisou requerer uma sala do escritório da empresa para contato com os dirigentes e para suas primeiras declarações. Foi declarado estado de emergência em toda a região. O Ibama, o Ministério Público Federal e o Estadual, o DNPM, a Polícia Civil, o Corpo de Bombeiros, a Polícia Federal, a Defensoria Pública, a Emater, a Epamig, todos se fizeram presentes em Mariana. Quando o Ministério Público do Espírito Santo também começou a se posicionar, Sávio defendeu a formação de um grupo de trabalho com membros da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Advocacia-Geral do Estado de Minas (AGE-MG) e do Espírito Santo (AGE-ES) para análise das proposições jurídicas. Compartilhou da decisão de criação de uma força-tarefa com membros dos governos de Minas e do Espírito Santo, incluindo representantes dos municípios envolvidos, e comemorou que a presidente Dilma divulgasse notícia sobre plano de recuperação da bacia do Rio Doce num horizonte de 10 anos.

O secretário Sávio durante reunião de 20/11 com o os governadores Fernando Pimentel (MG) e Paulo Hartung (ES) e o fotógrafo Sebastião Salgado em que foi decidida a criação de grupo conjunto de trabalho para a recuperação de toda a bacia do Rio Doce (Foto Semad)

O secretário Sávio durante reunião de 20/11 com o os governadores Fernando Pimentel (MG) e Paulo Hartung (ES) e o fotógrafo Sebastião Salgado em que foi decidida a criação de grupo conjunto de trabalho para a recuperação de toda a bacia do Rio Doce (Foto Semad)

Precedentes – Sávio lembra que a barragem do Fundão não foi a primeira que se rompeu em Minas. Mais dramático que todos, em razão de sua capacidade de armazenamento de rejeitos, o rompimento do Fundão foi precedido por desastres semelhantes na mina de Fernandinho (Itabirito, 1986) e em barragens da Mineração Rio Verde (Macacos, 2001), da Indústria Cataguases de Papel (Cataguases, 2003), da Mineradora Rio Pomba Cataguases (Miraí, 2007) e da Herculano Mineração (2014). Há em Minas 735 barragens, sendo 450 delas destinadas ao armazenamento de rejeitos de mineração. “A mineração é a atividade econômica mais antiga do Estado; desde a colonização, as montanhas de Minas vêm sendo revolvidas, primeiro à cata de ouro, depois buscaram-se as pedras preciosas e essas foram seguidas pelo minério de ferro e, mais recentemente, pelas terras raras, como as que contêm o nióbio em Araxá”, comenta o secretário.

Reprimarização da economia – Nos últimos anos, enquanto exercendo seu mandato de deputado na ALMG, o secretário Sávio enfatizava com veemência o que chamava de “reprimarização da economia”, denunciando que o Estado, em lugar de se abrir para novos empreendimentos, contentava-se com sua condição de exportador de commodities. Sávio ironizava que o governo tucano no Estado celebrasse o aumento de arrecadação obtido à custa da exportação do minério de ferro para a China. O tempo veio mostrar que ele tinha razão, pois, passado o boom da exportação, o preço da tonelada de ferro caiu drasticamente, relegando a economia mineira à condição de dependente quase que exclusivamente do agronegócio, esse também ainda muito restrito à exportação de grãos e carnes in natura. “Nada se fez no Estado em 12 anos para abrir fronteiras na economia”, era a análise de Sávio, que procura alterar os procedimentos da Semad exatamente para ampliar a participação de Minas na economia nacional.

Novas tecnologias para a mineração – Mesmo tendo sofrido os piores impactos com o rompimento do Fundão, a população de Mariana não quer o fechamento da Samarco, alegando que, se isso ocorrer, a própria cidade teria que fechar sua história. A constatação é dramática, pois revela a que ponto Minas depende da indústria extrativa. Mas, ela contém também um alento. Como Sávio lembra, “o ideograma chinês para a palavra ‘crise’ mostra que ela é abertura para a mudança”. O secretário confia que, no caso da mineração, o acidente certamente conduzirá à pesquisa e à adoção de novas tecnologias para a mineração. Ele pondera que já existem experiências com a mineração a seco, e essa, embora de custo mais elevado, pode vir a permitir a continuidade da indústria extrativa sem submeter a risco a população e o ambiente. A esse respeito, a CSN em Congonhas, que tem uma barragem de rejeitos a apenas 500 metros de um dos bairros da cidade, já se reuniu com a população para discutir um processo de drenagem. Gradativamente, a água da barragem secaria e a pilha de rejeitos secos, com o tempo, poderia inclusive receber vegetação e passar a fazer parte da paisagem como uma nova montanha.